contos de francisco


Estás no meu caderno

Minha pele sente um arrepio. Passo a mão pelo meu corpo e sinto o leve relevo que aquela sensação me traz. Sim, a música está tocando na sala. Como me sinto bem! Aguardo ansioso pela chegada de Maria. Seus lábios emitem o mesmo som do circo que havia em minha cidade. Seu corpo traz o mesmo arrepio do meu, e grita. Grita tão intenso quanto o meu. Quando a toco e sinto seus seios encostando em meu peito, ouço aquela mesma nota do violão que me lembra o azul. Passo a mão em seus cabelos lisos, seu nariz tão fino e sua boca pequena. Certa vez ela me disse que seus olhos eram azuis. Maria é uma mulher encantadora. Faz-me voltar à infância, me faz ouvir o som do Rio de Janeiro. Faz-me sentir toda a música que sempre ouvi e que faz parte de minha vida. Maria é minha dança, nessa minha trilha da vida. Essa minha trilha, sonora. Deixo-me levar pelos sons, pois acredito que sejam o que de mais vivo existe em mim. O silêncio me aflige. Perco-me em sua ausência de cor. Ando pelas ruas e ouço as vozes das pessoas. Algumas crianças brincando. Alguns me cumprimentam e os identifico pela voz. Aliás, a voz é meu caminho para imaginar cada pessoa que aparece em minha vida. Maria tem a voz de uma Maraca, sempre alegre. Minhas aulas também se tornaram uma grande paixão. Ensinar é algo que me faz acreditar que, de alguma maneira, existirá um pouco de mim em outra pessoa. Acho que o ser humano precisa disso. Deixar marcas, vestígios de si. Precisa ser lembrado. Por isso escrevo. Não posso ler minhas anotações, mas outras pessoas lerão. Sempre que posso tento transcrever todos os meus escritos para o Braille. Assim, outras pessoas que também não lêem visualmente, poderão ler os meus relevos. Lembro-me até hoje de quando aprendi a escrever em uma máquina de datilografar. Foi inexplicável o sentimento que tive ao conhecer as letras. Escrever passou a fazer parte de minha vida, como já fazia na de meu pai. Ele escrevia em sua máquina madrugada afora e eu o acompanhava em sua insônia. Em seus intervalos, ele me ensinava o alfabeto. E eu ia decorando todas as letras e suas posições. Escutava todos os sons da tecla, da escolha do alfabeto até mesmo ao som do erro.



Estamos esperando

Cada vez que sentia aquela criança se mexer, dentro do confortável abrigo de Maria, percebia o quão valioso era o tempo que me aguardava. Que esperança, que alegria! Não podia mais esperar para ouvir seu som. Já imaginava como seria.

E quando Teresa nasceu, seu choro foi o que de mais bonito ouvi em toda a vida. Chorei. Maria enxugou minhas lágrimas e me beijou. Segurei Teresa em meu colo e ela se calou. Mas continuava ouvindo o seu som... era o mesmo do mar. E a sensação que me trazia era a mesma. Paz.



Esquina da vida

Acordo cedo, sinto o calor do sol em meu corpo. Beijo Maria amorosamente e já consigo ouvir a primeira música do dia. Sim, hoje o dia será Mário Reis, que beleza! Ouço os primeiros ritmos do vento, notas leves de um violão tocam em minha mente. Sigo meu caminho até a escola, as batidas começam a ficar mais intensas, assim que pego o bonde em direção a Afonso Pena. Sinto-me em um musical, já posso imaginar toda a dança ao meu redor. Cada som da cidade transformando-se em pura música. A melodia do bonde, as conversas das românticas mulheres, o canto dos pássaros e a batida inquietante de meus pés. Que vida, que movimento! Sinto as pedrinhas das ruas de Belo Horizonte, meus dedos tocam os muros e árvores da cidade e as bicicletas passam em um único compasso. Sim, uma primeira música forma-se nessa segunda-feira.


As aulas são sempre graciosas. Gosto de brincar com os instrumentos, perceber a maneira com que eles reagem, inesperadamente. Gosto de transformar meus sons em música. Sigo através dela, sinto-a tão intensa em minha pele. É como se estivesse marcada em meu corpo.

Algumas vezes, me surpreendo em sonhos, caminhando pelas ruas. Perco-me em meus sons e quando percebo, estou naquele espaço em que os sons mais agradam minha alma. Não me importo com esses meus desvios. O som é minha direção.


Doutor em samba

Quando eu ainda era um pequeno garoto, o qual não deixei muito de ser, apreciava muito ir à fazenda de minha mãe, no interior de Minas. O som daquele lugar era incrivelmente tranquilizante. Nunca percorri por todo o terreno, mas pela amplitude que aqueles sons ecoavam e transitavam, podia perceber a sua extensa dimensão. Sempre perguntava a minha mãe se o céu estava todo azul. Se sim, dava pulos de alegria: o dia seria perfeito.

O que mais apreciava era ir à cachoeira. Mamãe não gostava, dizia que era muito perigoso para eu brincar sozinho. Mas tão bonito era o som da água caindo... eu o seguia lentamente pelos arvoredos. Seguia aquele som tão claro, caindo, caindo, caindo... chegava! Colocava meus pés naquela água fria e sentia um relevo de arrepio em todo o corpo.

O som da terra, do movimento das águas, do céu azul e das folhas caídas era meu samba. Quando criança dizia que seria um sambista. Meu pai, com toda a sua pompa do jazz em seu auge, me introduziu logo às aulas de piano e sax. Mal sabíamos que eu iria me encantar pelo cavaquinho e violão. E que Mario Reis, e não Louis Armstrong seria minha inspiração musical. São incrivelmente belas as interpretações que Mario oferece às composições por ele cantadas.

Certa vez, Chico, um grande amigo meu, disse-me que eu precisava acordar desse mundo em que vivo. Que não seria possível perceber aquela bonita interpretação musical através do som, sem enxergar os gestos e expressões do cantor. Disse a ele que realmente não sabia como eram as expressões visuais, mas pedi a ele que fechasse os olhos e ouvisse aquela linda música que tocava no baile.

“Vai, orgulhosa querida,
Mas aprende esta lição
No canto incerto da vida
A vida sempre é o coração”
Mario Reis

Encostei minhas mãos em seu ombro e pude notar o quão arrepiado ele estava. Sim, eu sabia que ele havia escutado a expressão.

 
Quando o samba acabou

Maria morreu. Meu som acabou. Não ouço mais nada, além da dor penetrante do silêncio. Não ouço mais cor alguma, nem sequer o azul. “Não” é a palavra que gruda em meus lábios. Não. Não consigo viver sem minha moreninha, minha flor. Tudo acabou, as pessoas se foram, o encanto da cidade já não mais existe. A dança de minha vida já não é mais. Nada é. Meu peito dói. Meu peito, que tanto gritava quando encostava no peito de Maria. Minha Maria. Minha doçura... O corpo de Maria era meu Braille. Conseguia decifrar cada mínimo detalhe de sua pele. Agora, já não leio mais.


Não sou mais. Meu sonho acabou.

Aonde foi todo aquele som? Onde está a vida? Vou me perder em todo esse silêncio...

Como ficará a promessa que lhe fiz?

“Dar-te-ei o meu amor,
A minha vida,
Em troca do teu coração.”
Mario Reis